Resistência Criativa
- 25 de mai.
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Atualizado: há 7 dias

Mesmo com os avanços da tecnologia que pasteuriza a criatividade, uma vez que, todos estão buscando a inspiração no mesmo lugar, há aqueles que ainda lutam pela preservação da criação manual advinda do cérebro humano que se transforma em algo palpável através de nossas mãos, voz, pés, e principalmente, coração porque se em tudo o que criamos deixamos um pouco de nós mesmos é porque colocamos o nosso coração na tarefa que ao ganhar forma, passa a habitar este mundo. Onde antes era vazio, agora há algo.
Criatividade é repertório. Repertório vem do que se viveu.
Entre aqueles que lutam, está Rosalía junto de seu álbum Lux, o qual claramente não fora produzido para agradar a massa e aos algoritmos, mas ainda assim, agradou. Toda essa admiração que estamos sentindo, e todo o frenesi da internet talvez esteja conectado a duas coisas que muito pouco conseguimos ver no mundo musical atual, o frescor da originalidade que gera curiosidade, aquilo que nos intriga e que faz com a gente queira explorar e trocar com quem está à nossa volta sobre o assunto, e se tratando de uma cantora tão popular como Rosalía essa efervescência se torna global. Hoje 44% das músicas presentes em plataformas como Spotify, YouTube Deezer entre outras, são geradas via IA (Fonte: Deezer), grupos musicais inteiramente digitais estão crescendo no gosto dos consumidores, e mesmo aqueles que são reais têm relatado dificuldades em preservar o seu viés criativo devido a pressão das gravadoras e agentes para lançar músicas estilo jingle com poder de viralização no TikTok, surpreendentemente, aqui podemos citar Adele, a qual já que deu entrevistas relatando que se negou a produzir este tipo de música e Halsey que conversou sobre ter sofrido boicote da gravadora por se negar a gravar músicas tiktokzáveis. Se a Adele que é a Adele passa por isso, o que sobra para os artistas talentosos em início de carreira?
Indo além, e adentrando no mercado de moda, não à toa Glenn Martens junto do seu time criativo escolheram como trilha sonora para o desfile de verão 2026 uma orquestra infantil para tocar ao vivo. O que poderia ser mais simbólico do que crianças tocando música clássica mostrando que a criatividade segue em nossas mãos sim e que ela já tem herdeiros, tem futuro, ao mesmo tempo que nos mostra que temos a responsabilidade de preservar um legado para que eles possam dar continuidade. Essa preservação passa pelo ato de se posicionar contra a cultura da monetização rápida e a todo custo que passa justamente pelo avanço tecnológico, pois se toda criação for pautada em alcançar números o que nos sobra? Alguém consegue imaginar Caetano Veloso, Gauguin, Hieronymus Bosch ou Marina Abramovich criando suas obras que atravessaram o tempo, baseado em algoritmos ? A coleção apresentada no desfile também enaltece os processos de criação e reutilização, utilizando de camadas pesadas de tinta - que é um dos símbolos do imaginário dos artistas - sobre os acessórios, e, um trabalho riquíssimo de reaproveitamento e transformação de peças de coleções anteriores, o que por sua vez, se conecta com a tendência do vintage.

Ainda falando da criação que vem do coração, não tem como não falar de Bad Bunny vencendo dois Grammys (Latino e Global) de melhor álbum, álbum este que fala sobre raízes, pertencimento, afeto e em especial sobre a beleza que habita nos momentos banais com aqueles que amamos. Cada um de nós tem país, estado, cidade, família e uma raiz bem funda fincada nesse lugar, como não nos tocaria textos embalados de melodias que nos falam disso? Como poderia algo sintético como a IA criar algo assim? Simples, não poderia. A Inteligência Artificial não tem vida e é através da vivência e das coisas que nos atravessam nessa jornada é que nós conseguimos criar algo profundo o suficiente para tocar outro ser humano. Então volto ao que foi dito no primeiro parágrafo deste texto, criatividade é repertório. Repertório é vida acontecendo.

Para citar mais alguns exemplos que demonstram o quão latente o comportamento está no cenário cultural, a Miu Miu lançou uma nova campanha inteiramente fotografada com câmera analógica e baixa edição; o consagrado fotógrafo Tim Walker tem compartilhado através do seu instagram os bastidores de suas fotografias e as ilustrações que produz para explicar para os envolvidos no projeto o que ele deseja como resultado, por fim; Guillermo Del Toro lançou a sua versão de Frankenstein fazendo questão de dizer na divulgação do filme que nada fora feito em fundo verde, tudo o que está no filme fora construído de verdade por artistas de diferentes áreas desde a cenografia até o figurino.
Saindo do macro e olhando para o micro.
Bom, onde eu quero chegar falando de tudo isso, é que este é um momento em que nós temos uma forte mancha comportamental que forma um cabo de força contra os avanços desenfreados da tecnologia em campos onde anteriormente somente nós habitávamos. Esse tipo de força contrária é importante, pois se inicia em esferas superiores - artistas - que começam a “contaminar” as esferas inferiores - o dia a dia do criativo comum, por exemplo, designers - essa contaminação nada mais é do que a conscientização das pessoas, porque como vimos, os artistas lançam projetos que todo mundo fala e daí pessoas que refletem sobre o assunto começam a comentar, a conversa se generaliza nas rodas de amigos, que por sua vez, faz com que as pessoas se posicionem a respeito.

Diante disso, eu enxergo dois principais caminhos possíveis, sendo eles:
Cenário 1 - O IDEAL:
As pessoas irão se movimentar mais rapidamente para criar ferramentas e posicionamento de mercado que as valoriza como criadores, além de, buscarem por empresas que valorizem esse tipo de trabalho manual, gerando uma dificuldade de contratação de pessoas em empresas que priorizam somente criação dependente de algoritmos e ferramentas digitais, o que por sua vez, fará o mercado se adaptar para uma cultura mais equilibrada entre analógico e tecnológico.
Cenário 2 - PARA ONDE ESTAMOS INDO NO RITMO ATUAL:
Os profissionais criativos perderão o seu espaço para as ferramentas digitais que passarão a ser os principais agentes ao invés de ferramenta de trabalho, a criatividade manual ficará concentrada nos mercados de luxo, e somente após um longo período de desgaste e quase socumbimento do mercado criativo, o mercado voltará a valorizar estes profissionais, completando assim o ciclo de tendências que acontecem de anos em anos - 7 a 10 -.
Balanço geral, pois se há movimento, há esperança:
As informações estão correndo rápido através das mesmas tecnologia que muitas vezes boicotam os criadores, com isso, mais pessoas vem falando sobre pautas relevantes em redes sociais como TikTok, e com essa propagação da informação e da força de vontade das pessoas em se posicionar e se adaptar, poderemos conseguir uma conciliação entre os mundos, pois em um ponto todos concordam, esse é um momento em que os profissionais que souberem como atrelar a sua diferenciação com algum skill digital, tem maior relevância dentro do mercado de trabalho.



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